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Concurso de Contos e Crônicas

Produções Artísticas e LiteráriaPrimeiro Concurso Literário Ryoki Inoue Produções

A editora e produtora cultural fundada pelo autor mais prolífico do mundo, abre inscrições para seu primeiro o concurso literário de contos e crônicas. Com prêmios especiais para até os 40 primeiros colocados.

O Sebo

Pouco maior que uma quitanda e quase tão sujo quanto uma peixaria malcuidada, este estabelecimento comercial não deixa de ter seu encantamento, sua poesia.

Todo o mobiliário se resume a uma escrivaninha em que o proprietário faz suas anotações, duas cadeiras ordinárias e montanhas de livros espalhadas pelo meio da loja, empilhadas pelos cantos, que sobem pelas paredes formando uma decoração caótica e complicada. Em todos os montes são desrespeitados os princípios mais elementares do equilíbrio e vê-se claramente que não há a menor preocupação com a estética. Aliás, não é mesmo possível adotar qualquer ordem de arrumação, pois os volumes, cada um diferente do outro em tamanho, cor e forma, não permitem tal luxo.

E há um certo aroma no ar! Sim, pois assim como uma quitanda ou uma peixaria tem seus cheiros característicos, esta loja também tem o seu: é um cheiro de mofo, de poeira misturada com nicotina e papel velho. Pode ser que seja o inferno para os asmáticos, mas conheço muitas pessoas que adoram essa mescla de estranhos perfumes… Entre elas há até as que dizem que esse é o cheiro da verdadeira intelectualidade.

Estamos num sebo, numa loja de livros usados, de segunda ou mesmo de enésima mão.
Já pela simples disposição das mercadorias, vemos que é absolutamente impraticável toda e qualquer operação de limpeza.

Faxina, então, nem pensar! Imaginem ter de levar tudo aquilo parra algum lugar para se poder passar um pano no chão! Varrer, apenas varrer, já é uma tarefa complicada e arriscada, pois seria muito fácil misturar com o lixo diversos opúsculos e livretos que jazem pelo assoalho em completa intimidade com pontas de cigarro, papéis de bala, palitos de fósforos queimados e muitas outras coisas ainda bem menos nobres e poéticas. Isso, é claro, sem falar do perigo de se esbarrar numa avultada pilha de enciclopédias, mal equilibrada sobre um dicionário, e causar um monumental desastre… Há até o risco de morte. A morte sob o peso do conhecimento!

Encontrar, especificamente, uma obra ali? Tarefa totalmente impossível. Nessa loja, compra-se aquilo que o acaso faz cair nas mãos. Lobato está ao lado de Eça que, por suas vez, está por cima de Montaigne, que, inexplicavelmente, está apoiado em Rousseau — que se encontra frente a frente com Byron. O positivismo se avizinha do tomismo e Kant se deixa montar por Sartre e por Baudelaire. James Joyce disputa um instável lugar com Hemingway, enquanto Jorge Amado e Simone de Beauviur empurram Thomas Mann para uma posição perigosa.

Sorrindo, vemos que inimigos mortais em vida se encontram agora lado a lado, deitados juntos, placidamente instalados. Talvez em seus túmulos, eles estejam remexendo, cheios de revolta…

por Ryoki Inoue

Ninguém para me acompanhar, livro de Nadine Gordimer

Vera Stark, advogada de uma fundação sul-africana cujo objetivo era garantir o acesso dos negros à terra, é a protagonista desta formidável obra de Nadine Gordimer. Sem dúvida, Ninguém para me acompanhar, é um grande romance. Aliás, não se poderia esperar menos desta autora, natural de Springs, na África do Sul, e Prêmio Nobel de Literatura em 1991. Na época em que o regime do apartheid ainda domina a África do Sul, Vera Stark vive as emoções de lutas políticas, de perseguições e de injustiças. Frente a frente com negros e brancos — cada qual defendendo o mais bravamente possível seus pontos de vista e seus interesses — a competente advogada se vê envolvida com funcionários públicos incompetentes e relapsos, com brancos que não conseguem admitir a evolução dos tempos e dos costumes e, principalmente, consigo mesma, confrontando o trabalho que desenvolve e sua vida familiar. A autora aborda com muita propriedade temas até mesmo já muito batidos sobre a segregação racial e o racismo propriamente dito, vigentes não apenas naquele país, mas em todo o mundo. E, para surpresa de todos, Nadine Gordimer mostra a faceta humana — evidentemente cheia de falhas — de todos os personagens que povoam sua obra. Assim, a própria Vera Stark, por seu comportamento e atitudes, não esconde em momento algum o alto grau de egoísmo que possui. Está certo que ela trabalha por uma nobre causa, dedica-se ao extremo, até mesmo extrapola suas obrigações em muitas oportunidades — numa delas, chega a ser baleada — mas tudo isso é apenas conseqüência do que ela mesma se propôs a fazer. Tanto está trabalhando pelos negros e pela conquista de seus direitos, quanto poderia estar trabalhando com o mesmo ímpeto e a mesma dedicação, numa empresa de seguros contra incêndios. Falta-lhe o idealismo quase que religioso que tão bem caracteriza os que realmente se dedicam a uma causa, como se fosse a razão única de sua vida. A razão única da vida de Vera Stark parece ser tão-somente a sua realização profissional, a consciência de ter feito bem o seu trabalho, de não ser obrigada a escutar críticas de espécie nenhuma. Ou seja, falta-lhe viver com a alma os problemas dos negros que a procuram na Fundação, ao invés de vivenciá-los como uma autêntica burocrata o faz. Está aí a grande diferença entre ela e um de seus amigos, Didymus, ex-exilado e verdadeiro idealista — ou pelo menos o foi, durante o tempo em que se viu perseguido e ameaçado — dedicado apenas à libertação de seu povo, ainda que essa dedicação não conseguisse ser convenientemente dogmatizada ou normatizada. A esposa de Didymus, uma negra bonita e desempenada chamada Sibongile, é utilizada pela autora para exemplificar o fenômeno da subida à cabeça, ou seja, a embriaguez do poder e da própria glória. Sibongile, negra e sofrida durante os tempos de exílio, acaba por sofrer a influência da cultura européia branca e passa a ser exigente: não se adapta mais às condições de vida de seu povo quando de seu retorno à África do Sul, quer que a filha, Mpho, receba educação em nível de Primeiro Mundo, quer mostrar que é mais do que qualquer outro. Está certo que todos deveriam ter esses direitos, mas também é certo que não se sai da submissão para o domínio, sem sacrifícios ou mesmo, sem uma convulsão social e violência. E há violência no livro de Nadine Gordimer. Em doses certas, nos momentos certos, violência descrita com o cuidado de evitar o exagero. Tanto cuidado que a autora deixa de resolver a personagem Sibongile, posta numa lista negra da direita conservadora branca, deixando o leitor sem saber o que, afinal de contas, aconteceu com ela. O mesmo cuidado em poupar o leitor da violência sangrenta, Nadine Gordimer não tem com o que se refere a sexo. O livro é recheado de sexo — muitas vezes quase explícito — do começo ao fim. Há um componente de provável arrependimento por parte de Vera Stark por ter se divorciado muito jovem, arrependimento este que se pressente quando ela tem uma aventura amorosa com um alemão mais jovem. Nadine, certamente, quis mostrar que seus personagens são, de fato, pessoas normais, iguais a quaisquer outras, portanto sujeitas às fraquezas e aos problemas de todos os mortais comuns. Dessa maneira, Vera Stark se vê às voltas com o divórcio do filho, com o lesbianismo da filha e com o excesso de juventude — não apenas excessos da juventude — do neto. A advogada nutre um sentimento de profunda admiração, talvez até mesmo um amor platônico, amor não resolvido, por Zeph Rapulana, líder de uma township e que se transforma numa importante figura envolvida com a nacionalização de bancos e financeiras. Zeph é uma espécie de guru de Vera Stark, um sábio, quase um avatar, capaz de aconselhá-la e até mesmo de ditar regras e normas, mostrar caminhos e soluções. Vera acaba deixando o marido — o segundo, pai de seus filhos — para viver praticamente sob o teto de Zeph. Porém, não há aí nenhuma conotação sexual, ao menos do ponto de vista consciente por parte da advogada: ela apenas sente a necessidade de compartilhar com alguém sua dedicação ao trabalho, faceta de sua personalidade que, aparentemente, não tinha sido compreendida por seus familiares. E o empowerment acaba fazendo com que Rapulana passe a fazer parte do mesmo nível social de Vera, com direito a freqüentar plenamente e com segurança, a sociedade dos brancos. A autora enfoca magistralmente — e sem cansar o leitor — as manobras políticas dos brancos para provar que os negros, ainda que detendo parte significativa do poder, não terão jamais possibilidade de se desenvolver. Uma das maneiras é possibilitar acesso, por exemplo, ao controle financeiro, mas sem lhes proporcionar o know-how necessário. O fracasso, inevitável, é tomado por incompetência absoluta. Diga-se de passagem que esta é uma manobra de política suja que, de maneira nenhuma, pode ser considerada como exclusividade da África do Sul.

por Ryoki Inoue

Pisca-Pisca

Bem no início da década de 60, nós estudantes que frequentávamos o bairro de Santa Cecília, o conhecemos e com ele passamos várias noitadas.
Era um homem branco, alto, simpático, com um cavanhaque “ao natural”, de cabelos bem pretos e lisos. Se estivesse metido em roupas boas e caras, poderia facilmente passar por um aristocrata mas, nos farrapos que usava…
Jovem ainda, mostrava nitidamente os sinais de alcoolismo crônico: edema anarsáquico discreto, andar vacilante, tremores… Não teria mais salvação, disso todos sabiam, ele inclusive.
Chegava-se às mesas de calçada do restaurante Chic-Chá, na Avenida Angélica, e perturbava os fregueses pedindo uma esmola para comprar pão. Quando conseguia comover algum deles, com a maior caradura, caminhava para o balcão do próprio Chic-Chá e comandava, altivo, ao garçom:
— Me dá uma pinga aí!
E, com estardalhaço, punha o dinheiro sobre o mármore, sorrindo para quem lhe dera a esmola. Apanhava o copo e, solenemente, brindava o seu benfeitor:
— À sua saúde! — gritava.
Procópio, Mário e eu éramos fregueses assíduos desse restaurante, inclusive considerados fregueses “quentes”, já que nossa consumação não se limitava aos chopinhos com batatas fritas mas frequentemente era de uísque com filezinho ao palito… Estudávamos até tarde da noite e, para espairecer, íamos tomar um drinque lá, esfriar a cabeça. Íamos ajudar o Mário a gastar a gorda mesada que o pai lhe mandava de Brasília.
As vezes tínhamos a sorte de encontrar o Pisca-Pisca por lá e, maldade de adolescente, nós o chamávamos para judiar do dono do bar, também nosso amigo, e para aborrecer os outros fregueses:
— Ei! Pisca! Venha tomar uma cana com a gente!
Seu apelido, Pisca-Pisca, vinha-lhe de um cacoete que o fazia abrir e fechar os olhos rapidamente, apertando muito as pálpebras, sempre que começava a ficar nervoso. E, diga-se de passagem, ele ficava nervoso bem à-toa!
Nunca conseguimos descobrir quem era ou o que tinha sido o nosso amigo.
Percebíamos que sua cultura não era nada má, conhecedor que era de vários títulos de livros, diversos autores e outras coisas assim. Não se deixava enrolar em uma conversa e parecia ter viajado muito: descrevia cidades de diferentes estados com detalhes só possíveis para quem já tivesse estado por lá. Gostava de política e, tinha bom conhecimento do assunto. Obviamente, era oposicionista mas, por incrível que possa parecer, nem ao menos era socialista. Paradoxalmente era lacerdista ferrenho.
— Mas Pisca! — falávamos para o chatear — Se o Lacerda aparecer por aqui, você está frito! Não ouviu dizer que ele joga todos os mendigos no rio?
Nosso amigo se inflamava:
— Não sou mendigo! — dizia, piscando, apertando os olhos e se agitando — Estou vivendo uma situação difícil, isso é verdade… Mas não sou mendigo, não senhor!
A corda pegava.
Começávamos a instigar os brios do homem, e a caçoar dele:
— É verdade, doutor! O senhor não é um mendigo não!
A juventude é sádica e não dá tréguas em semelhantes ocasiões. Agíamos assim, apenas para ver o pobre bêbado piscar, piscar, apertar os olhos, esfregá-los com as costas da mão suja e beber, beber sem parar. Não nos importávamos com a conta que teríamos de pagar, achávamos que essa maldosa diversão valia qualquer despesa. Nunca nos ocorreu que o Pisca-Pisca, talvez piscasse para não chorar…
Depois de muito torturar o pobre homem, íamos embora, cada um para a sua casa, para o quentinho de seu quarto enquanto o Pisca-Pisca lá ficava. Ia dormir, como sempre, nas escadarias da Igreja Coração de Maria. Não nos incomodávamos, aliás, nem sequer pensávamos nisso. Terminada a noite, pagávamos a conta, despedíamo-nos uns dos outros e saíamos.
Pisca-Pisca ficava para trás: era um objeto que fazia parte do nosso folclore noturno, nem mesmo lembrávamos que ele era humano, que sentia frio, fome e carência afetiva como qualquer um de nós.
Às vezes se passava uma semana inteira sem que o encontrássemos.
Então, uma noite qualquer, o víamos surgir, o andar grotesco, cambaleante. Ele nos via e estugava o passo, parecendo ainda mais simiesco. Cumprimentava um por um, chamando-nos pelo nome, sentava-se com a maior sem-cerimônia, chamava o garçom e pedia:
— Traz aí uma Brahma! E um conhaque que é para quebrar o gelo!
Uma noite, ele chegou ao bar antes de nós.
E, não se sabe como nem por quê, criou um caso com outro mendigo que passava. Quando chegamos, uma roda de curiosos (inclusive a polícia) se acotovelava para ver a briga dos dois.
Os palavrões eram homéricos, cabeludíssimos, seus movimentos, seus golpes, seus tapas eram idênticos aos das brigas de palhaços no picadeiro de um circo.
A cena era tão cômica que chegava a ser ridícula.
Pela primeira vez tivemos realmente pena do nosso amigo.
O ridículo espetáculo nos fez sentir vergonha e querer acabar logo com aquilo. Parecia (reconhecemos isso depois de ter acabado tudo) que era um de nós que ali estava a dar vexame, a fazer e a passar vergonha.
Abrindo caminho por entre os curiosos, separamos a briga, não deixamos a polícia intervir e consolamos nossos bêbados gladiadores com o tipo de consolo de que eles precisavam: duas belas doses de conhaque para cada um.
Em poucos minutos a briga se transformou em amizade profunda, aquela amizade que une os bêbados e os fazem contar as mazelas da vida um para o outro e se tornarem confidentes.
Enquanto sentávamos para o uísque de fim de noite, nós os vimos descendo pela calçada da avenida Angélica, dizendo-se mutuamente:
— Você sabe o que já passei nessa vida! Me desculpe por hoje!
Depois dessa noite encontramos o Pisca-Pisca por várias vezes e notamos que piorava dia após dia. Sua saúde definhava e sua mente entorpecia.
Mas isso, se nos chamava a atenção, não chegava a nos perturbar, jamais foi um motivo de preocupação.
Nem mesmo notamos quando desapareceu.
Vieram os vestibulares com aqueles meses de estudos intensivos, com as grandes tensões dos exames, as angústias e ansiedades bem típicas dessa época de nossas vidas.
Entramos na Faculdade e, calouros orgulhosos de nossas cabeças raspadas, fomos para a primeira aula, a aula que desvirgina o acadêmico de medicina: Aulas Magna de Anatomia Descritiva.
Sobre a mesa, um cadáver coberto.
Quando o professor descobriu o corpo, nós três nos olhamos e não conseguimos reprimir as lágrimas.
Alguns colegas nos viram chorar e riram, divertidos.
Mas nós, só nós, sabíamos o por quê daquela emoção.
O cadáver sobre a fria mesa de mármore, nu, duro, já acinzentado pelo formol, aquilo que outrora fora um homem e que agora era um objeto de estudo, apenas um corpo a ser retalhado para os estudantes aprenderem alguma coisa, tivera vida um dia, e nessa vida, havia nos chamado pelo nome, bebido conosco, rido e chorado conosco.
Sim, era o cadáver do nosso amigo, o Pisca-Pisca.

por Ryoki Inoue

O Crime da Beleza

Ruben Braga começou uma de suas crônicas assim: “Vovô vê a uva… Eu vejo a viúva”.
A diferença é que eu não vejo viúva nenhuma, minha atenção se concentra e se desvanece vendo a uva. Uma uvinha linda – minha netinha, hoje com quatro anos de idade.

Concomitantemente, salta-me aos olhos, através de um noticiário na televisão, a imagem de uma outra uva, esta com treze anos de existência. E fico pensando, preocupado, se daqui a parcos nove anos minha neta também estará assim.

Creio que não. Por mais que o modus criandi que minha filha usa para moldar a menina seja diferente – às vezes até mesmo antagônico – daqueles que nós, seus pais, lançamos mão para formá-la, acho que à minha neta jamais seria permitido chegar a tal absurdo.

Sim, absurdo, pois a menina que ali na telinha diz que tem apenas treze anos de idade, aparenta pelo menos vinte e três.

A. B. – vamos identificá-la assim, apenas com as iniciais, uma vez que não é nosso desejo infringir a Lei e esta diz que menores de idade envolvidos em alguma espécie de infração, não podem ter seu nome divulgado a não ser por suas iniciais – é, inegavelmente, linda. Possui um rosto de linhas puras, um corpo bem feito – talvez magro demais, para o meu gosto – cabelos bonitos, é elegante… Tem tudo para ser uma modelo de sucesso como, aliás, o é.

A. B. é a representação concreta do sonho da imensa maioria de nossas adolescentes: ela é uma modelo profissional com a agenda cheia e iluminada pelos holofotes da mídia especializada.

Quando ela começa a responder às perguntas do entrevistador, temos mais uma surpresa: sua voz, seu modo de falar, a lógica das respostas, a desinibição, a maturidade e a calma de A. B. em hipótese alguma condizem com a sua idade cronológica.

À luz do mais rudimentar conhecimento sobre a evolução individual de uma pessoa, percebe-se nitidamente que essa menina foi exaustivamente trabalhada do ponto de vista psicológico para que pudesse mostrar – ao menos nessa entrevista – que está muito mais madura até mesmo do que muitas mulheres já adultas. Olhando-a e ouvindo-a falar, esquecemos por completo de seus treze anos de vida… Ali está uma mulher e não uma menina!

Enquanto ela é entrevistada, a produção do telejornal passa algumas imagens de A. B. desfilando. Ela está usando – nessa imagem que mais se fixou à minha memória – um vestido bem decotado e que deixa entrever seios grandes, completamente dissonantes com o corpo de uma adolescente mal entrada na puberdade. A velha, ultrapassada e já comprovadamente errônea teoria afirmando que as brasileiras, por causa do clima tropical ou sub-tropical, teriam um desenvolvimento somático mais rápido do que as européias ou mesmo norte-americanas não é suficiente para explicar tamanha opulência. E, então, ela confessa que fez uma prótese de silicone. Cento e oitenta mililitros de cada lado… Argumenta que tal procedimento tinha sido necessário, uma vez que seus seios eram pequenos demais.

Esqueceu-se A. B. – bem como seus pais – que a Natureza não prevê para o desenvolvimento físico de uma menina de treze anos de idade, seios tão volumosos, mesmo porque sua coluna vertebral ainda não está desenvolvida a ponto de suportar esse peso.

A pergunta bate-me, de chofre: qual foi o médico que aceitou fazer essa cirurgia, sabendo que estaria infringindo não apenas a lei dos homens, mas uma lei muito mais sábia que é a da própria Natureza? Não pode ter sido um incompetente qualquer, tanto que se pode notar o chamado sucesso cirúrgico, ou seja, o médico obteve plenamente o resultado pretendido.

Então vem a triste certeza: não teria existido outro motivo para a realização dessa cirurgia que não o dinheiro. Assim como também foi o dinheiro – muito bem amparado pelos alicerces de uma situação a que se denomina fama – que motivou os pais de A. B. a permitirem que se lhe tenha sido arrancada a infância e a adolescência como num passe de mágica: hoje, você é uma menina; amanhã será uma mulher, sendo que esse amanhã é realmente amanhã, apenas vinte e quatro horas depois e não um amanhã metafórico, que sugere todo um futuro, décadas, talvez um lustro para a frente.
Neste momento, A. B. está afirmando estar consciente de que a carreira de modelo tem curtíssima duração e que já está se preparando para a aposentadoria – provavelmente compulsória – aos vinte e poucos anos de idade.

Reflito: A. B. perdeu a infância e a adolescência preparando-se arduamente para brilhar nas passarelas; e um erro estratégico, uma malandragem por parte das pessoas que se encarregaram de administrar o dinheiro que ela ganhou, pode decretar que ela também perca não apenas a mocidade, mas a vida toda. Aliás, somaticamente, ela já está perdendo pelo menos dez anos de vida, já que foi envelhecida de propósito prematuramente. Com treze anos, ela aparenta pelo menos vinte e três…

Minha atenção retorna ao vídeo e vejo-escuto a menina dizer que tinha sido obrigada – por causa dos incontáveis compromissos profissionais – a abandonar os estudos na sétima série. Voltará ela à escola depois, quando se aposentar? Tenho toda a liberdade de pensar: duvido.

Faz-se um verdadeiro escândalo de mídia quando se fala de casos de meninos-carvoeiros, meninos-mulas carregando fardos pesadíssimo de erva mate, de flanelinhas explorados por adultos nos semáforos das grandes cidades. Diz-se alto e a bom som que lugar de criança é na escola. O governo chega a fazer – e a mal executar – projetos de acréscimo – ridículo – de renda familiar para possibilitar crianças a deixarem de trabalhar para poderem se dedicar aos estudos. São crianças pobres, de famílias pobres, com sonhos mais chãos…

Mas ninguém fala – pelo menos de forma suficientemente clara – a respeito dessas meninas, boa parte delas vindas de famílias de classe média, que trabalham muitas vezes incomparavelmente mais do que qualquer menino-carvoeiro, por exemplo, na perseguição do sucesso e da fama nas passarelas. E, evidentemente, na perseguição dos gordos lucros monetários que a posição de top model pode auferir.

Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, a profissão de modelo, para qualquer dessas meninas, é contrária ao que ditam os incisos I e II do artigo 63, que onde fica expressa a garantia de acesso e freqüência obrigatória ao ensino regular e atividade compatível com o desenvolvimento do adolescente. O mesmo Estatuto estabelece como crime o fato de adultos obrigarem crianças a trabalhar.

Portanto, no caso de nossas tão jovens modelos, estão sendo cometidos – assim a olhos vistos – pelo menos dois crimes: o afastamento das meninas dos bancos escolares e a exploração do trabalho infantil, crime este em que seriam réus os agentes e os pais da modelo.

Pensando mais um pouco, encontro mais criminosos: o médico que lhe implantou próteses de silicone, o nutricionista que lhe estabeleceu uma dieta magra, tão magra que no máximo lhe permite a sobrevivência, os fotógrafos que não se inibem de fotografar sua nudez – e isso poderia ser catalogado como crime de corrupção de menor – o psicólogo que lhe enfiou na mente uma auto-estima que ela ainda não está preparada para assumir e a própria mídia, que divulga e exalta uma menina que, aos treze anos, tem corpo, cabeça e trabalho de uma mulher no mínimo dez anos mais velha.

A modelo, esta, não tem culpa nenhuma. Ela é a vítima típica, aquela que sofre em virtude da ambição material de pais, agentes, médicos, nutrólogos, fotógrafos, repórteres e todos mais que, em função da assincronia idade-função-trabalho da modelo, ganham verdadeiros rios de dinheiro.

É mais do que natural que uma menina, desde muito cedo, tenha como ídolo qualquer uma dessas modelos lindíssimas que diariamente estão na telinha. O que não pode ser considerado como natural é o fato de essa menina ser excessivamente estimulada a se tornar uma delas. Pior ainda: os pais dessa menina – principalmente a mãe – fazer de tudo para que ela assim o seja. Isso implica no desprezo da base fisiológica da vítima, vale dizer que inúmeras vezes os adultos que a cercam fazem questão de fechar os olhos às evidências mais simples, tais como o biótipo da menina, e forçam-na a ser fisicamente algo que a Natureza, já em seu código genético, impedira-a de ser. Crime de lesão corporal grave, com dolo?

Escuto um toc-toc meio dissonante e descompassado às minhas costas e vejo – com um arrepio de terror – minha netinha aparecer calçando os sapatos altos de sua mãe.

Penso um pouco antes de responder afirmativamente à sua pergunta vovô, estou bonita? E estremeço quando ela dá uma volta sobre si mesma – quase caindo dos saltos, é verdade – e diz: Quando eu crescer, vou ser como a Gisele Bündchen!

Assim espero, minha uvinha… Assim espero. Mas, veja bem, somente quando você crescer.
Quando terminar de crescer!

por Ryoki Inoue